segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O menino

Gosto de ver as coisas do meu jeito, entortá-las ao ponto de transformar a água em pinga doce. Gosto de dar nome às pedras que ficam à deriva, entregando-as ao prazer da existência viva. Gostaria também de colocar o mundo em uma gaveta do meu criado mudo, e usá-lo todas as vezes em que fosse aos bares, só para impressionar a menina de vestido amarelo, e depois colocá-lo de volta na gaveta, envolvendo-o na penumbra densa do quadrado. De que vale a verdade se nada diz sobre o que queremos ouvir, o que desejamos que seja? Hoje de manhã, um garotinho me parou na rua, pediu esmolas e eu neguei sem olhar direito para o seu rosto empoado e triste. Não porque o dinheiro me faltava, mas porque ele me veio num desses momentos apressados em que tudo a nossa volta não passa de sombras vertiginosas do mundo. “Não tenho agora”, eu disse, e saí em passos apressados, alongados pelo ímpeto competitivo de chegar primeiro. O alarido urbano estonteava a minha vaga lucidez e me sentei num banco próximo a uma cervejaria. Descansado depois de algumas horas, voltei, e o garoto não estava, sumiu em meio ao pranto coletivo do submundo, grito desesperado que ressoa em eco aos ouvidos mais atentos. Pensei que nunca mais o veria, nunca mais poderia corrigir o erro consequente de uma distração comum e tola. Fui embora meio triste, não tão triste como aquele que não teve o que pediu, nem de mim, nem de Deus – mas triste como um carneiro que é impedido de pensar sozinho, e que segue os outros, sem dizer palavra.

domingo, 28 de agosto de 2011

A fuga

Já não sentia os espinhos arranhando a pele, nem o medo das surpresas que aquele ambiente escuro e fechado pelas folhas causaria a qualquer pessoa. Apenas caminhava, deixando levar-se pela sagacidade limitada do instinto. As mãos estavam geladas, os braços doíam, e a dificuldade em respirar fazia com que o desejo de abrir os olhos fosse preocupação secundária. Avistou um toco encostado no aconchego de uma árvore e pressentiu, guiado pela esperança de continuar em vida, que a fuga estava prestes a encontrar o seu desfecho.
Sentou-se, a cabeça encostada no tronco, as mãos descansando no colo e a retomada do ar que saía e entrava, agitado. Pensou, por um momento, que ali seria o seu último descanso. As baforadas ficaram mais brandas e o desejo da morte soprava em seus ouvidos, chamando-o, como uma puta satisfeita no raro prazer do sexo que acenava, no leito impreciso da flora, para aquele que fora o autor de suas alegrias libidinosas. Abriu os olhos e avistou, com certa dificuldade, um amontoado de madeiras visivelmente modificadas pelas mãos de um homem.
Haveria alguém por perto que lhe pudesse doar abrigo? Seria a sua casa quente, com uma lareira no meio da sala e as crianças se preparando para dormir, tomando o leite esquentado pela mãe?
Não sabia ao certo se eram reais ou apenas imagens que os seus olhos criavam como uma forma de acalmar o seu momento de morte. Forçou as pernas para se levantar num movimento inútil, agarrou-se ao tronco e percebeu que as forças já haviam se despedido sem avisar. Soltou um gemido que mal passou pela traquéia, numa tentativa insólita de se animar, da mesma forma que fazia quando os dias tediosos cercavam o seu corpo naquela cela emporcalhada pela lambança dos ratos. Fechou novamente os olhos e vagou pelo passado.
Pensava no calor da praia, no sol veraneio que banhava a vida simples do seu antigo vilarejo no litoral. As mulheres lavando a roupa no domingo de manhã, às vezes, lhe causavam certo espanto. Sabiam de tudo e até teorizavam sobre algumas normas comportamentais. Os homens chegando de tardezinha à espera de sossego, os filhos, unidos pelo pudor da infância, moldando os castelos de areia com o cuidado de um artesão. À noite, numa única praça que faltava luz, o namoro às escondidas, guardado pelo sorriso perolado da lua.
Abrira mão daquilo tudo por uma bobagem, uma briga sem sentido que acabara em morte. Fora apenas um soco, assim como aqueles do tempo da escola, e tudo viera abaixo. O corpo negro despencava como se fosse pedra mole e logo o barulho das sirenes ressoavam aos ouvidos que mal acreditavam naquilo tudo. “Homicídio Doloso”, fora o que ouviu de um dos policiais. Seu rosto estava pálido e as pessoas lançavam injúrias em direção a ele, apontavam o dedo e berravam fazendo caras feias. Fora colocado, a empurrões e pontapés, dentro de um camburão velho e não se ouvira mais notícias suas. A mãe se mudara para o Norte, junto com um comerciante. O pai morrera e o irmão montara uma loja de materiais de pintura no interior de São Paulo, por meio da qual se mantinha vivo.
Fora preciso alguns anos para se acostumar ao presídio. Logo, fizera contatos, localizara alguns homens que se mostraram amigos e que estavam na mesma situação: sobrevivendo no mundo dos tortos, dos desalinhados, desprovidos de uma segunda chance.
Abriu novamente os olhos e viu algumas pontas de luz balançando e desarrumando a imagem embaçada do escuro. Seria Deus, juntando as partículas iluminadas do seu Ser e esperando que a hora chegasse, e assim carregar nos ombros aquele corpo cansado e arranhado pelos arrependimentos e também pelos espinhos? As pupilas insistiam em cobrir os olhos e a resistência em se manter acordado parecia ter sumido completamente, até que tudo ficou escuro.
Quando acordou, estava em uma cama coberta de um branco que nunca havia visto antes. Pensou, sem poder se mover um centímetro sequer, que – talvez – os seus pecados haviam sido, enfim, perdoados.

domingo, 7 de agosto de 2011

A chuva

Embora tivesse cessado a chuva, o asfalto ainda estava molhado e as pessoas se mantinham quietas no silêncio caseiro, guardado pelas paredes de suas casas populares. Sozinho, ele andava em passadas tensas, enquanto a imagem trazida pelas lembranças era refletida nos olhos meio perdidos.
Os cabelos acompanhando o vento, o colo moreno, as unhas feitas com o cuidado de artista. Havia um tempo em que não prestava tanta a atenção nos detalhes. Tinha na memória apenas a imagem do quarto, a cama vazia, e quando ela chegava cansada do trabalho, se olhavam e se abraçavam num ânimo que se confundia, ora com o amor, ora com o afeto.
Ela reclamava dos seus olhos distantes, da sua insegurança, da sua maneira desleixada de se vestir. Ele rebatia com discursos, mas não adiantava. Ambos sentiam que o muro entre os dois já fora construído e sua dureza ainda se mantinha intacta. Mesmo assim insistia, comprava presentes, acordava cedo e fazia, antes que ela acordasse, o café da manhã. Ela agradecia com um beijo tímido, um abraço amigo e desentendido do verdadeiro motivo daquele gesto. Segurando-a pela cintura, ainda tentava animá-la, deslizando os lábios pelo pescoço, da forma como ela sempre o elogiava. Mas o calor amante do abraço, aos poucos, ia se esvaindo, o corpo se contraía e as mãos escorregavam decepcionadas pelo quadril.
Era uma situação dentro da qual tinha se acomodado. A normalidade dos fatos começava a prendê-lo em casa, e passava o dia sentado na poltrona grande, no meio da sala. Os programas de TV vieram a ser a sua diversão diária. Não havia mais poesia no final do dia, nem as conversas que atravessavam o silêncio do quarto, e nem a vontade de se olharem no escuro, na hora de dormir.
Antes, achava que era culpa do tempo, do costume, da inevitabilidade dos amantes em se tornarem irmãos, do desejo que se despede anunciando a convivência como uma possível substituta. Mas naquela noite, pisando no asfalto úmido, pensou que a culpa era mesmo dele. Poderia ter prestado mais atenção naquele jeito silencioso de dizer as coisas, que era só dela. Poderia ter olhado mais a fundo, sem a orientação do orgulho, e ver o verdadeiro sentido daquela angústia manifestada em gestos. Haveria tempo de mudar as coisas? Pensou.
Num ímpeto, voltou-se para o gato sentado em uma esquina pouco iluminada. Sentiu que o gato queria lhe dizer algo, mas não podia, havia limitações. Compreendeu aquele olhar felino como queria, e começou a caminhar um pouco mais depressa. Entrou no prédio, pegou o elevador, chegou num apartamento que ficava quase no final do corredor, tocou a campainha.
Ela abriu a porta surpresa, sorriu um sorriso sem graça e se esforçou para que ele não olhasse para o interior do apartamento. Sem que quisesse, os seus olhos foram puxados pela curiosidade da saudade. Queria saber o que tinha mudado no apartamento durante o tempo em que a distância das palavras os mantiveram separados. Olhou disfarçadamente: havia outro. Ela pediu para que ele passasse mais tarde, ele consentiu com a cabeça, sem dizer uma palavra. Ela fechou a porta enquanto o acompanhava descendo as escadas. Sentindo o dia mais pesado, ele foi embora. Chegou em casa, abriu um álbum velho de fotografias e ficou olhando o passado como quem vê um filme, até que veio, de novo, a chuva, lavando o asfalto que mal havia secado.

domingo, 31 de julho de 2011

Quando estiver cansado...

...levante rápido da cama, sem arrumá-la, e vista-se com as suas roupas mais simples. Desça as escadas lentamente, como uma noiva na hora do casamento, e vá direto ao banheiro. Lá, procure um espelho, mesmo que seja pequeno, e olhe no fundo dos olhos da imagem que aparece, sem medo. Pergunte a ela sobre seus defeitos e sobre o que fizera na noite anterior. Provavelmente, ela irá repetir a mesma pergunta, como fazem os irmãos mais novos quando querem nos irritar com as suas safadezas.  Se ela não quiser lhe responder, não têm problema. Ignore tudo o que não lhe der nenhum tipo de respaldo. Depois de escovar os dentes, vá até a cozinha, onde encontrará toda a sua família tentando adivinhar o porquê de você ter bebido tanto. Não dê ouvidos àqueles que te colocam num julgo que não é o seu e resmungue qualquer coisa que lhe vier das idéias. Sente-se, cínico, na mesa como se nada tivesse acontecido e dispa-se. Seu pai, provavelmente vestido com a sua camisa de botão listrada e utilizando-se de sua voz forte e autoritária, dirá: “Coloque a camiseta, não é assim que deve se portar em uma refeição familiar”. Diga ao senhor dono da voz que você está cansado das roupas e se sentindo sufocado pelo calor por elas provocado. Ele ainda tentará convencê-lo com um discurso batido, o mesmo que percorrera todos os lares nobres da História, mas não ouça, assim como fizeram os comunas no início do século passado. Depois de comer, dirija-se para o carro, ligue-o, e vá até o rio mais próximo. Quando chegar, encoste o carro na beira, desça devagar e entre na água. Não se esqueça de focar-se apenas na curva do horizonte, em nada mais. Se chegar ao ponto em que a sua altura já não é suficiente para manter a cabeça do lado de fora, nade, o mais rápido que conseguir. Quando estiver bem longe da margem, a ponto de não distinguir exatamente a distância percorrida, deixe a água envolver todo o seu corpo e sinta-se como uma pedra em queda livre. Sentirá também o pulmão apertado. O peito irá doer um pouco e vai bater uma certa vontade de voltar. Mas não se preocupe, isso faz parte da transformação.  E quando a água invadir todo o interior de seu corpo, como um fluído alegre arrebentando as paredes feitas de marasmo e tédio, estará em um novo mundo: o mundo dos peixes.

domingo, 24 de julho de 2011

Lembrança

Olhando a cachoeira derramar nas pedras todas as suas perguntas infantis e ver que elas (as pedras) respondem silenciosamente como uma velha esposa desiludida. Vendo as nuvens anunciar a sua chegada, aos gritos, convidando todos os homens a entrarem quietos em suas casas feitas de palha.  Testemunhando os urubus – ah os urubus – que indicavam, naquela tarde triste, os cadáveres precisados do socorro dos animais comedores de carne. Observando os canários dançando sapecas, sob os cuidados das mães árvores, a sua dança desentendida das conjunturas do mundo animal e se comunicando, por meio de pios, com o joão-de-barro, único possuidor da tão sonhada casa própria. Olhando para a garça, exibida, desfilando no raso do rio a sua beleza lenta, orgulhosa por ter as mais belas pernas do pantanal. Havia também pescadores, longe, tarrafiando em seus barcos de pau o sustento dado aos pobres estomagozinhos pardos, que brincam todos os dias nos campinhos de terra dos vilarejos perdidos no mato. Olhando tudo isso, lembro-me, sentado na ponta de um velho pedaço de madeira, da tua imagem diminuindo de tamanho. Seus cabelos enrolados dançavam com o vento e você me deixava, mas uma vez, sem as tuas necessárias palavras de afeto.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O labirinto e a rosa

           O mercado municipal estava cheio por causa do aniversário da cidade e o homem, sentado no banco do outro lado da rua, perambulava no interior de si mesmo, perdido no seu próprio labirinto – aquele que se constrói na medida em que lidamos com situações novas e que vai se complicando junto às experiências que fazem envelhecer.
 Procurava dentro de si, sem muita expectativa, alguma idéia sobre o que comprar para Laura, sua namorada há dois anos e meio.
“O que posso comprar com cinco reais?” – pensava.
Sentia-se como um poeta em processo de depravação criativa. As idéias desviavam-se dos seus movimentos como quem pode prevê-los, e ainda sorriam para ele fazendo fusquinha. “Por que é que temos de ser criativos no amor? Não basta o sermos no trabalho, com os amigos e com o público frente ao qual representamos todos os dias?” – perguntava para si mesmo numa tentativa frustrada de justificar a sua indiferença àquilo que concebia como “amor”.
– Olá, amigo, posso ajudá-lo – perguntava, de repente, outro homem, cujo espírito solidário refletia-se nos seus olhos castanho-escuros e cujas roupas brancas e largas indicavam algum pseudo-contato com um mundo sem muitos conflitos materiais.
– Não sei se pode.
– Por que não tenta?
– Não se preocupe, não é nada.
– Vejo que passava por um conflito aí dentro de sua cabeça, estava falando sozinho.
– Amigo, eu agradeço a sua preocupação, mas os conflitos que se passam na minha cabeça são problemas que preciso me livrar sem a ajuda de terceiros, portanto, peço que não se preocupe comigo e vá viver sua vida de santo em paz.
– Então tome essa rosa, talvez ajude. Encontrei-a numa roseira dentro do quintal de uma dessas casas de jardim, dentro das quais o mundo não parece tão complicado como esse que se apresenta, agora, na nossa frente – disse o homem, saindo devagar.
“Porque é que eu não pensei nisso antes? Uma rosa, tão simples” – refletia novamente o homem, encerrando o diálogo consigo mesmo.
Levantava-se de sobressalto e dirigia-se ansioso para o carro, segurando firme a rosa vermelha e indiferente à dor leve causada pelos espinhos. Pisava fundo no acelerador a ponto de sentir, embora calçando os velhos sapatos de camurça, a quentura do asfalto na sola dos pés. Corria aloprado pela cidade sem dar tanta importância ao alvoroço das buzinas. Passava os sinais vermelhos sem perceber até chegar, numa freada brusca, em frente a uma casa de portão verde-claro. Lá, avistava Laura usando seu vestido de cor singular, parecia de ferro chumbado, e pegava a rosa em cima do painel do carro.
– Olha o que eu trouxe – dissera, dirigindo-se a ela com a rosa em uma das mãos.
– Uma rosa – identificava a moça, parecendo não se surpreender muito.
– Para mostrar-lhe o quanto gosto de você.
– Parece que está meio murcha.
– Pode ter ficado assim por causa do sol, deixei-a em cima do painel do carro enquanto vinha para cá.
– Achei linda, obrigada.
Os dois se beijavam tímidos. O homem olhava para Laura e via que seus olhos estavam parcialmente encobertos pelas pupilas, como quem havia acordado há pouco tempo e tinha o pensamento longe, ainda no sonho interrompido pela necessidade de acordar.  Enlaçando-a pela cintura, acompanhava o andar lento da moça para dentro da casa. Via que Laura entrara no quarto com a rosa e, ao sair, não a segurava nas mãos. “Talvez tenha guardado no criado mudo”, pensava. Depois disso, preferira esvaziar a sua cabeça, deixando que o silêncio que pairava entre os dois, na hora do jantar, respondesse a todas as perguntas perdidas naquele estúpido labirinto, que acabara de tomar uma nova forma.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Telefone chiado, ligação perdida

Enquanto seus pais conversavam na sala, o menino correu por toda a casa, empolgado, e chegou ofegante para o irmão, deitado no quarto dos fundos.
– Eu não sei o que dizer, Edivaldo, não sei o que dizer.
– Diga o seu nome e que pegou o telefone com uma amiga dela.
– Não, Edivaldo, eu não consigo. O telefone está chamando e não sei o que vou falar primeiro. Eu não deveria ter ligado.
De susto, chega o pai que, mais irritado do que curioso, pergunta:
– O que é essa barulheira toda?
– Nada, pai, não é nada – diz Edivaldo.
– Não quero barulho, estou tentando conversar com a sua mãe. Tentem nos dar um pouco de sossego.
– Vai, pai, não é nada.
Bravo, o pai se afasta dos conversadores, colocando alívio no peito magro do menino, que resolveu tentar de novo a ligação.
Do outro lado da linha, uma voz feminina e pré-adolescente.
– Alô.
– Alô, peguei seu telefone com uma amiga sua, meu nome é Eduardo.
– Quê?
– Meu nome... Eduardo... Peguei seu telefone com a Mônica.                                
O telefone, já velho, chiava, e o menino, sem saber o que fazer, desligou-o.
– Caiu a ligação.
Com olhos desconfiados, o irmão mais velho o encarava. Fazia aquilo não porque desconfiava realmente – sabia que era mentira! – mas para penetrá-lo no fundo de sua culpa. Olhou-o dos pés à cabeça, analisando-o, e mostrando indignação perante a sua covardia. Já o menino, ao cair em si, pegou o telefone novamente, discou o número e esperou, sério, a mesma voz pré-adolescente – que não mais apareceu.