domingo, 25 de março de 2012

Desnacionalizados

Bem aventurado é aquele que nasce desprovido de nacionalismos. É livre, na medida em que as bandeiras amarelo-mangas, vermelhas e azuis, brancas e de outras cores variadas, não lhe causam aquela vontade cega de se atirar em guerras sem nenhum sentido, nem lhe provocam nenhum tipo de nojo inconsciente  e inexplicável. As filas na escola, o respeito e os hinos cantados harmoniosamente da boca para fora lhe são estranhos, assim como o discurso daquele louco professor entusiasta, falando sobre as batalhas sangrentas e heroicas das guerras mundiais. Sua razão de existir é o estômago, apenas ele. Segue seus movimentos e seus pedidos ao mesmo passo em que o cristão segue seu santo, dando-lhe notas de repúdio quando não se cala, e agradecendo-o na medida do possível. Bem aventurados são aqueles que nascem sem nacionalismos, e que se fazem e se levantam não no seio de uma bandeira de pano qualquer, mas no desenvolvimento de sua triste condição social.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Uma breve reclamação

Fico realmente triste com certo grupo de pessoas. São exatamente aquelas que da boca se utilizam para formar o pensamento, falando primeiro e pensando depois. Gostam de dizer as suas verdades em alto, tão alto como a voz de Deus, ofuscando falas que lhe são estranhas. E o pior é que fazem isso de propósito, como em um jogo de capoeira, evitando dar espaço ao outro para lhe impor os golpes. Saem vitoriosos e felizes. Mal imaginam que suas falas são confusas e servem apenas para justificar o erro. Não refletem sobre a relação que existe entre o mundo objetivo e a teoria, se utilizando da segunda para justificar o que pensa em relação à primeira. Não fazem o parâmetro entre concreto e abstrato, vendo apenas um, ou outro. Para esses, que não conseguem ver além daquilo alcançado pela boca, que não buscam a verdade partindo exatamente dela, e saem por aí dizendo bobagens como, por exemplo, “O mundo é assim mesmo”, justificando a sua posição parada e triste, jogo uma pergunta: Se te orgulhas com fato de tua boca ser tão afiada como uma espada em brasa, por que não a usa contra àqueles que a calam, todos os dias, nos jornais e nas novelas, e também nas leis?

Vento

Comecei o dia enfezando o vento. Fui falando um monte de bobagens, chamando-o de bobo, pau-mandado das nuvens, manso e tolo revisionista que se finge no invisível. Até peguei o ventilador, no quarto, e liguei bem na sua frente, contra o seu movimento, pra fazer oposição. Fui fazendo fusquinha e até mostrei o dedo. Ele me disse, depois de muito tempo, que por mais que eu tentasse, ele não ia ficar bravo, pois tinha o apoio dos passarinhos, das árvores e até mesmo dos cachorros e gatos. Falou que não queria perder a tranqüilidade, que estava bom assim, pois era domingo, dia de descanso. Depois disso, perguntei: Se os passarinhos lhe apóiam, por que é que eu não estou vendo nenhum agora? Ele ficou quieto, num silêncio absoluto de vento, e continuou tranqüilo, aparentemente. Mais tarde, quando eu quase já não tinha forças, me veio um pombo na janela, meio triste, e depois foi embora, como se quisesse dizer algo e não pudesse, por pressões maiores. E o vento começou a bradar como se fosse perder o seu posto de vento, tão forte, que me arrancou grande parte do telhado feito de barro, e de esperança.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Palavra

A palavra é a síntese de idéias convergidas em apenas um ponto. Carregam em meio às letras um sentido único e amplo, podendo ser utilizada em várias ocasiões. “Papel”, dependendo dos diversos casos, pode se referir a uma folha, dentro da qual cabem várias e várias palavras. Ou pode ser aquilo que é representado por um ator, que se utiliza delas, das palavras, para expressar o que quis dizer o teatrólogo e dar-lhe a fama que merece. Ou pode ser o que representa o dever amargo de um governo, como mostra a frase: Qual é o papel do governo xis perante a crise econômica mundial? Delas também se utilizam os doutos, para falarem de si mesmos. Sozinha, ela não é nada. Apenas um conjunto de letrinhas inúteis que resolveram se juntar por pura conveniência sonora. Mas juntas, formam a frase que, por sua vez, formam o texto que, também por sua vez, formam idéias modificadoras de ventos. Somos palavras de uma mesma História, emaranhadas num todo incoerente e fosco.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Cidadão

O “cidadão” é aquele indivíduo desprovido de origem social. É neutro, na medida em que nos discursos que a ele se referem é colocado como sendo o ser humano puro, na sua relação ambígua com a natureza e na sua incapacidade de fazer-se diferente dentro de um grupo social qualquer. É o todo e, ao mesmo tempo, é apenas um: ele mesmo. Creio, porém, que essa definição é apenas parte de um grande roteiro cujo filme se mostra, aos olhos e prazeres do mundo, um verdadeiro conto de fadas. É prosa feita às escondidas, moldada ao corpo de princesas e príncipes e edificada num final feliz.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Aos chinas, um novo dia

Para quem se viciou em falar da China como um país sem tradição de luta, engana-se tanto quanto o rato à confiar em cobra. O país que, hoje, mais cresce no mundo, é forçado a mostrar o calcanhar de aquiles do neoliberalismo: os explorados mais oprimidos do mundo no início de uma revolta.
E não é só isso. Apesar de os chinas não poderem respirar sem pedir permissão às mais ou menos cômicas sombras maoístas, penteadas com o sangue rude dos seus compatriotas, utilizam-se de uma ferramenta muito conhecida entre os lutadores e repressores espalhados pelo mundo (inclusive, muito bem conhecida pelo próprio Partido Comunista Chinês): a internet.
Gostaria de fazer uma pergunta aos inventores dessa tão utilizada ferramenta, para tantas coisas. Mas confesso que essa minha pergunta não é para suprir uma curiosidade que se desfaz numa resposta óbvia, mas uma forma de dar sentido ao desenvolvimento dessa minha pobre e pretensiosa fala.
Quando pensou em dar ao mundo o conhecimento de si próprio, pensou que esse mesmo mundo sentiria a necessidade de mudar-se?
Como já disse, é apenas uma pergunta feita para dar corpo à minha retórica. Mas se for verdadeiro, gostaria de agradecer-lhe o favor que fez ao povo. És o Jesus Cristo em falsa pele, tão esperado pelos mais variados cristãos e suas crenças. Mas se a resposta é não, infelizmente tenho que lhe mostrar a cara fria e densa da minha sinceridade: és o burro dos burros, a ovelha desgarrada e feia do seu asqueroso e porco rebanho de exploradores.
Tenho certeza de que as desculpas serão muitas, mas o resultado de todo esse alvoroço social, político e econômico está tão nítido como a imagem de um espelho velho refletindo o começo de um novo dia.
            Quanto aos chinas, prefiro não dizer mais nada e deixar que escrevam, com suas pequenas mãos de fogo, a sua própria História.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano-novo

Era ano-novo e o estádio estava quase terminado. Fazia muito calor e não chovia há três meses. O tempo quente o atrapalhava no trabalho, sempre atrapalhou. “Sol na cara não é bom para os olhos, nem para a cabeça” disse o médico do postinho na semana passada. Queria comprar para o filho um tênis, para a filha uma boneca de pano, que ela tinha gostado quando saiu com a mãe num desses passeios de tarde, e para a mulher uma blusinha, amarela com flores verdes, como a bandeira do Brasil. Gostava da bandeira e achava bonita as suas cores. Mas para comprar tudo o que queria comprar tinha que trabalhar além da conta, fazer hora extra. Não tinha carteira registrada e não recebeu o décimo terceiro, não havia jeito. Tinha que dar o máximo para também se redimir com a mulher de outras vezes, outras trapalhadas suas que deram em dura discussão e noites que não foram dormidas, por causa da culpa. Pensava na compra não apenas como forma de satisfazer as vaidades da família, mas como um pedido de desculpas. Andou pelo centro da cidade todo atrás da boneca de pano, da blusinha e do tênis. No outro dia, fez a mesma coisa e, no outro, a mesma coisa. No terceiro dia, já havia gastado o dinheiro recebido da hora extra para fazer umas compras no mercado, não havia outra coisa a fazer. O estômago – pensava ele – não precisa de frescuras, não precisa disso e chama em seco pelo dono, como um bebê que pede, aos choros, o seu leite. Dez quilos de arroz, dois molhos de tomate, cinco pacotes de macarrão parafuso, três quilos de feijão e alguns pães. Quando chegou em casa com as coisas do mercado, pensou ter feito a coisa certa. Os filhos o receberam com um abraço e, a mulher, com um sorriso quase tímido. Os filhos ficaram felizes e a mulher o perdoou – por alguns instantes, pois logo brigaram por ele ter esquecido de comprar o coxão-mole. No ano seguinte, depois das festas e das comemorações, todos puderam assistir à Copa do Mundo pela televisão, com a comida na barriga e os problemas de sempre.