O revisionismo, de tempos em tempos, causa medo aos mais avançados pensamentos revoltosos. Não se trata apenas do ato de revisar, mas sim, de reformar. É como pensarmos em alguém que quer manter a casa como está depois de um longo e difícil trabalho dos pedreiros. Como se fosse possível reformar a sala sem mudar a cor e a composição das paredes, ou dormir com o mesmo conforto em um quarto cujas paredes, o telhado, e o piso mudaram de forma, de cor, e de sentido. Paradoxo não muito fácil de se resolver, principalmente quando se trata dos mais apegados aos antigos costumes, aos antigos ditos e ao peso que a tradição impõe às percepções e falas. Mas há aqueles que o recusam como sendo o mais mortal pecado, como se a casa tivesse que ser apenas uma, e o quarto não mudasse de piso e mantivesse a parede intacta até que se desbotem e caiam, de tão velhos. Há também alguns terceiros, utilitários das ambiguidades proporcionadas pela vastidão da língua, que ficam no meio, assistindo tudo de longe e apostando num futuro próspero, e que não conseguem fazerem-se compreender, nem mesmo quando se dirigem aos mais altos entendedores. É preciso revisar, sem deixar de ser o mesmo em sua mais bruta e doce essência.
domingo, 25 de março de 2012
Desnacionalizados
Bem aventurado é aquele que nasce desprovido de nacionalismos. É livre, na medida em que as bandeiras amarelo-mangas, vermelhas e azuis, brancas e de outras cores variadas, não lhe causam aquela vontade cega de se atirar em guerras sem nenhum sentido, nem lhe provocam nenhum tipo de nojo inconsciente e inexplicável. As filas na escola, o respeito e os hinos cantados harmoniosamente da boca para fora lhe são estranhos, assim como o discurso daquele louco professor entusiasta, falando sobre as batalhas sangrentas e heroicas das guerras mundiais. Sua razão de existir é o estômago, apenas ele. Segue seus movimentos e seus pedidos ao mesmo passo em que o cristão segue seu santo, dando-lhe notas de repúdio quando não se cala, e agradecendo-o na medida do possível. Bem aventurados são aqueles que nascem sem nacionalismos, e que se fazem e se levantam não no seio de uma bandeira de pano qualquer, mas no desenvolvimento de sua triste condição social.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Uma breve reclamação
Fico realmente triste com certo grupo de pessoas. São exatamente aquelas que da boca se utilizam para formar o pensamento, falando primeiro e pensando depois. Gostam de dizer as suas verdades em alto, tão alto como a voz de Deus, ofuscando falas que lhe são estranhas. E o pior é que fazem isso de propósito, como em um jogo de capoeira, evitando dar espaço ao outro para lhe impor os golpes. Saem vitoriosos e felizes. Mal imaginam que suas falas são confusas e servem apenas para justificar o erro. Não refletem sobre a relação que existe entre o mundo objetivo e a teoria, se utilizando da segunda para justificar o que pensa em relação à primeira. Não fazem o parâmetro entre concreto e abstrato, vendo apenas um, ou outro. Para esses, que não conseguem ver além daquilo alcançado pela boca, que não buscam a verdade partindo exatamente dela, e saem por aí dizendo bobagens como, por exemplo, “O mundo é assim mesmo”, justificando a sua posição parada e triste, jogo uma pergunta: Se te orgulhas com fato de tua boca ser tão afiada como uma espada em brasa, por que não a usa contra àqueles que a calam, todos os dias, nos jornais e nas novelas, e também nas leis?
Vento
Comecei o dia enfezando o vento. Fui falando um monte de bobagens, chamando-o de bobo, pau-mandado das nuvens, manso e tolo revisionista que se finge no invisível. Até peguei o ventilador, no quarto, e liguei bem na sua frente, contra o seu movimento, pra fazer oposição. Fui fazendo fusquinha e até mostrei o dedo. Ele me disse, depois de muito tempo, que por mais que eu tentasse, ele não ia ficar bravo, pois tinha o apoio dos passarinhos, das árvores e até mesmo dos cachorros e gatos. Falou que não queria perder a tranqüilidade, que estava bom assim, pois era domingo, dia de descanso. Depois disso, perguntei: Se os passarinhos lhe apóiam, por que é que eu não estou vendo nenhum agora? Ele ficou quieto, num silêncio absoluto de vento, e continuou tranqüilo, aparentemente. Mais tarde, quando eu quase já não tinha forças, me veio um pombo na janela, meio triste, e depois foi embora, como se quisesse dizer algo e não pudesse, por pressões maiores. E o vento começou a bradar como se fosse perder o seu posto de vento, tão forte, que me arrancou grande parte do telhado feito de barro, e de esperança.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Palavra
A palavra é a síntese de idéias convergidas em apenas um ponto. Carregam em meio às letras um sentido único e amplo, podendo ser utilizada em várias ocasiões. “Papel”, dependendo dos diversos casos, pode se referir a uma folha, dentro da qual cabem várias e várias palavras. Ou pode ser aquilo que é representado por um ator, que se utiliza delas, das palavras, para expressar o que quis dizer o teatrólogo e dar-lhe a fama que merece. Ou pode ser o que representa o dever amargo de um governo, como mostra a frase: Qual é o papel do governo xis perante a crise econômica mundial? Delas também se utilizam os doutos, para falarem de si mesmos. Sozinha, ela não é nada. Apenas um conjunto de letrinhas inúteis que resolveram se juntar por pura conveniência sonora. Mas juntas, formam a frase que, por sua vez, formam o texto que, também por sua vez, formam idéias modificadoras de ventos. Somos palavras de uma mesma História, emaranhadas num todo incoerente e fosco.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Cidadão
O “cidadão” é aquele indivíduo desprovido de origem social. É neutro, na medida em que nos discursos que a ele se referem é colocado como sendo o ser humano puro, na sua relação ambígua com a natureza e na sua incapacidade de fazer-se diferente dentro de um grupo social qualquer. É o todo e, ao mesmo tempo, é apenas um: ele mesmo. Creio, porém, que essa definição é apenas parte de um grande roteiro cujo filme se mostra, aos olhos e prazeres do mundo, um verdadeiro conto de fadas. É prosa feita às escondidas, moldada ao corpo de princesas e príncipes e edificada num final feliz.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Aos chinas, um novo dia
Para quem se viciou em falar da China como um país sem tradição de luta, engana-se tanto quanto o rato à confiar em cobra. O país que, hoje, mais cresce no mundo, é forçado a mostrar o calcanhar de aquiles do neoliberalismo: os explorados mais oprimidos do mundo no início de uma revolta.
E não é só isso. Apesar de os chinas não poderem respirar sem pedir permissão às mais ou menos cômicas sombras maoístas, penteadas com o sangue rude dos seus compatriotas, utilizam-se de uma ferramenta muito conhecida entre os lutadores e repressores espalhados pelo mundo (inclusive, muito bem conhecida pelo próprio Partido Comunista Chinês): a internet.
Gostaria de fazer uma pergunta aos inventores dessa tão utilizada ferramenta, para tantas coisas. Mas confesso que essa minha pergunta não é para suprir uma curiosidade que se desfaz numa resposta óbvia, mas uma forma de dar sentido ao desenvolvimento dessa minha pobre e pretensiosa fala.
Quando pensou em dar ao mundo o conhecimento de si próprio, pensou que esse mesmo mundo sentiria a necessidade de mudar-se?
Como já disse, é apenas uma pergunta feita para dar corpo à minha retórica. Mas se for verdadeiro, gostaria de agradecer-lhe o favor que fez ao povo. És o Jesus Cristo em falsa pele, tão esperado pelos mais variados cristãos e suas crenças. Mas se a resposta é não, infelizmente tenho que lhe mostrar a cara fria e densa da minha sinceridade: és o burro dos burros, a ovelha desgarrada e feia do seu asqueroso e porco rebanho de exploradores.
Tenho certeza de que as desculpas serão muitas, mas o resultado de todo esse alvoroço social, político e econômico está tão nítido como a imagem de um espelho velho refletindo o começo de um novo dia.
Quanto aos chinas, prefiro não dizer mais nada e deixar que escrevam, com suas pequenas mãos de fogo, a sua própria História.
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